Segunda-feira, Abril 12, 2004

O ENTERRO DOS VOTOS

Todos os anos a mesma questão: até que data é que se pode desejar um bom ano às pessoas, sem que estas fiquem a olhar para nós com cara de incrédulas?
Vamos a meio de Janeiro e eu, sempre que vejo alguém com quem não tenha falado já em 2004, continuo a desejar um óptimo ano novo. No entanto, noto que, não só o sentimento não é recíproco, como já me começam a olhar de lado. Estarei eu a entrar no cúmulo do ridículo? Ou terei eu menos amigos do que pensava?
Para facilitar a vida às pessoas que, como eu, são vistas como mentecaptas perante os olhos da sociedade, penso que deveria haver um dia temático, dedicado ao encerramento dos votos de um feliz ano novo. Uma espécie de enterro do Entrudo, mas com a família Câmara Pereira. Todos os anos colocava-se um representante diferente dessa estirpe de renome nacional e ateava-se-lhe o fogo. O corpo, depois de bem fritado, era dado ao Rei dos Touros de morte de Barrancos, que comia o pitéu ao som de gritos de cabras.
Assim, os Câmaras não só contribuiriam para a alimentação da monarquia (que tanto apreciam), como manteriam a tradição das touradas de morte (que tanto defendem), tudo ao sabor de ruídos caprinos (que tanta vez foram usados por elementos da família, em espectáculos de enorme gabarito caprídeo).
Enfim, fica a ideia e um feliz ano novo! DV

ANORMALIDADES

Fenómenos muito estranhos aconteceram ontem em Montemor-o-Velho, durante as filmagens da telenovela da TVI, “O Teu Olhar”. Os monitores ficaram todos vermelhos e várias pessoas sentiram-se mal dispostas nas gravações, numa igreja antiga. Quem sofreu mais com estes fenómenos esquisitos foi a actriz Patrícia Tavares.
Manuela Moura Guedes não perdeu tempo e ainda ontem conversou com a jovem, numa entrevista a que tive acesso e que, apesar de ter sido censurada pela estação de Moniz, passo a transcrevê-la na íntegra:

Manuela Moura Guedes – Patrícia, o que aconteceu ontem?
Patrícia Tavares – Quer dizer, eu senti-me indisposta quando estava a sair daqui ao final da tarde, cheguei ao hotel, vomitei e pronto. Não parece que tenha sido nada de anormal.
M.M.G. – Mas nós temos fontes no hotel que dizem que a Patrícia foi possuída por um espírito qualquer.
P.T. – Ahahahah! Olhe, eu não fui possuída por nada. Acho que é de um terrível mau gosto estar-se a especular uma coisa dessas. Tive uma má disposição e eu acho que qualquer pessoa pode ter...
M.M.G. – Olhe que nós temos descrições que ficou com voz de homem, com uma força anormal e que foi difícil de a segurar no hotel. Lembra-se de alguma coisa?
P.T. – Não há nada para lembrar! Eu cheguei ao hotel, vomitei, descansei e depois saí.
M.M.G. – Permita-me que insista, há relatos, há pessoas que arranjaram crucifixos...Não se lembra de nada?
P.T. – Não. Comigo, não.
M.M.G. – Humm, ouve lá, ó sua estúpida do cu da pila, lembra-te lá de alguma coisa, pá. Se nós inventámos que houve malta à rasca, só tens é de dizer que sim, pá. Chiça.
P.T. - Mas ó Manela, não aconteceu nada. Eu juro por todos os meus namorados futebolistas.
M.M.G. – Bolas, pá. Estou a ver que esta gaja não está possuída pelo espírito da auto promoção. Bom, sua cabra, estás despedida. Vai lá cuidar dos teus e larga-me da labita. Esquece as 14 novelas para as quais estavas já contratada.
P.T. – Ó Manela, eu acho que já me estou a lembrar de alguma coisa. Espera...
M.M.G. – Sim? Então Patrícia, pode contar-nos o que aconteceu ontem?
P.T. – Acordei e era uma galinha. Não sei, era uma galinha. Era uma galinha, pá! Caramba, pá! Tantas penas! Ai, a canja! A canja! Ai, arde! Arde, digo-te eu!
M.M.G. – É esse o espírito! É esse o espírito!

DV
FALSO ALARME

Hoje assisti com algum interesse ao sorteio do Campeonato da Europa de futebol de 2004 e devo dizer que gostei muito da organização do evento. Muito profissionalismo e bom ritmo, num espectáculo que só teve um precauço, logo ao início, com a aparição de Dulce Pontes, envergando um dos vestidos estranhos que ela agora tem a mania de usar, para interpretar a “Canção do Mar”.
Quando a cantora abriu pela primeira vez as suas potentes goelas, posso jurar que vi Eusébio a colocar discretamente um dedo no ouvido, em sinal de incómodo.
Aí tive o meu único receio e pensei: “Bem, isto depois da gaja dos Blasted Mechanism, é o fim da macacada.”
Mas não. Falso alarme, falso alarme. DV
JUNTO À JANELA

Costumo escrever estes pequenos textos junto a uma janela e constato que é difícil manter a concentração quando estamos perto do mundo exterior. Por exemplo, olhando para a rotunda que tenho em frente, vejo uma fonte luminosa no seu centro com mais de 200 recém universitários a banharem-se tranquilamente vestidos de pato. Que imagem lindíssima!
Entretanto, desço o olhar e reparo que no parapeito está um jornal recente que mostra uma primeira página marcada pelo assalto a um banco em Oeiras, que afinal apenas se tratava de uma praxe académica. Abano a cabeça mostrando a minha indignação e, sem querer, bato com a testa no manípulo do estore. A dor é momentânea mas não me salva do sangue que escorre pela cara. Não suporto ver tal líquido e o meu estômago começa-se a ressentir do facto.
Abro uma gaveta de um móvel junto à janela e retiro rapidamente um pequeno frasco de álcool, para desinfectar a ferida.
O sangue não cessa, a indisposição começa a ganhar maiores contornos, o álcool arde que se farta e, no meio disto tudo, lembro-me de uma história antiga em que vários caloiros, para se integrarem no meio académico, tiveram de beber álcool puro, acabando depois no hospital, em estado grave.
Não aguento mais. Abro a janela e vomito toda a carne de porco à alentejana que comi ao almoço para o meio da rua, onde vários recém universitários cantam canções infantis.
Estou quase a desmaiar mas ainda consigo ouvir umas palavras finais vindas do exterior: Praxe! DV

DINHEIRAMA BARATA

Um dos assuntos do momento é, sem dúvida, as irregularidades na gestão da Associação Música-Educação e Cultura (AMEC) por parte da direcção de Miguel Graça Moura. Segundo os principais promotores, o maestro tem vindo a esbanjar o orçamento financeiro da instituição para fins pessoais.
Facturas mostram despesas em viagens e estadias completas a locais exóticos, roupas dos mais badalados estilistas, automóveis de luxo e, até mesmo, fatos de pantera e desbaratizações em casa, tudo saído dos cofres da associação à conviniência de Graça Moura.
Chamado para comentar este caso, José Barata Moura diz-se “chocado com a atitude do maestro, sobretudo se tivermos em conta que ele é da conceituada família dos Moura.” Segundo o reitor “esta questão dos dinheiros gastos em massacres de baratas só prova que ele nunca digeriu bem o facto do Fungagá da Bicharada ter-me levado à reitoria da Universidade de Lisboa, enquanto que as Bodas de Fígaro de Mozart apenas conseguiram garantir-lhe uma viagem à Tailândia à conta da AMEC.” DV

INAUGURAÇÃO

Segui atentamente a inauguração do estádio da Luz séc. XXI e fiquei abismado com a grandiosidade do novo recinto. No entanto, e ao contrário do que se poderia esperar, a imponência da nova casa benfiquista não abona muito em favor do clube. Há alguém que acredite numa equipa cujo treinador, visto das bancadas superiores, se parece com o padre Frederico? DV

TECNOLOGIA vs ENGATAR

Já se paga a conta da luz em casa através do computador, já há casas que tocam a nossa música preferida quando entramos numa divisória, já há cartões de crédito com o Eusébio.
A tecnologia, como se vê, avança, mas nem sempre faz avançar o Homem. Cartões de crédito com o Eusébio...
O que mais me preocupa no uso da tecnologia pela geração futura é, sem dúvida, o relacionamento humano.
Por exemplo, cada vez se torna mais difícil engatar a empregada dos correios, pois há máquinas à porta dos CTT para comprar selos.
Mas o pior ainda está para vir...
Não bastava poder fazer-se as compras do mês através do computador (Pingo Doce online, Continente online, mercearia do Sr. Licínio online), como agora até através do próprio frigorífico se pode encomendar o necessário.
Não faltam muitos anos para que a população portuguesa esteja, pelo menos, 30kg mais gorda. Tudo pode ser feito "com um simples toque num botão". Até as compras, único exercício físico de muitas famílias!
Então o que antevejo eu?
Alguém terá de ir a casa das famílias gordas, que carregam nos botões, para lhes ir entregar as compras. Esses sim, em grande forma física. Moços das entregas atléticos, musculados, altos, bonitos, cobiçados por todos. A profissão de 'entregueiro' vai-se tornar numa elite.
Revistas, programas, filmes, tudo só com moços e moças de entregas, onde só moços de entregas engatam moças de entregas, num mundo inatingível para o gordo comum.
Jogadores de bola, actores e actrizes, músicos, modelos e afins, têm o seu império de desejo à beira do fim.
Video killed the radio stars e Pingo Doce online will kill you all!!! JP

NOVOS ESTÁDIOS, NOVA ASSISTÊNCIA

Com a construção dos novos estádios de futebol, tem-se vindo a notar uma mudança de mentalidade dos projectistas face ao papel dos deficientes e marginalizados da sociedade.
Em todos os projectos, as barreiras arquitectónicas são quase nulas e as minorias têm um papel de destaque nas bancadas. O que antigamente era causa de repúdio e consternação, é hoje encarado com naturalidade e presenteado com um número de lugares significativo no mosaico humano que assistirá aos jogos.
Vejamos alguns exemplos desta caridade desportiva:

Estádio Alvalade XXI – 600 lugares para invisuais, atrás dos placares electrónicos.
Estádio da Luz – 350 lugares para anões, no topo da bancada norte.
Estádio do Dragão – 27 lugares para gémeos siameses, junto das casas de banho.
Estádio do Bessa – 15 lugares para mulheres barbudas, atrás da baliza da equipa da casa.
Estádio Municipal Dr. Magalhães Pessoa – 10 lugares para pessoas com mais de 2.50m, na mata adjacente ao recinto.
Estádio Municipal de Coimbra – 7 lugares para homossexuais, como apanha bolas.
Estádio do Algarve – 5 lugares para pessoas com 6 seis dedos em cada mão, nas bilheteiras.
Estádio D. Afonso Henriques – 2 lugares para moçambicanos, no parque de estacionamento.

(Todos os estádios projectados por Tomás Taveira são também Daltónicos friendly)

Só me resta aplaudir esta iniciativa e esperar que se estenda aos circos da cidade o mais depressa possível. DV

EXTERMINADOR CADA VEZ MAIS IMPLACÁVEL

Doze anos depois, eis que surge, nos cinemas portugueses, mais uma sequela implacável de um exterminador cada vez mais obsoleto.
Efeitos especiais, pancadaria da grossa, ritmo acelarado, argumento básico e frases orelhudas, continuam a ser a fórmula certa para manter viva esta saga que, inexplicavelmente, tantos fãs possui.
Apesar do filme me ter suscitado pensamentos suicidas, fiquei contente por saber que vai existir outra sequela, bem mais inovadora, por sinal.
Segundo li no site do hospital onde Schwarzenegger passa grande parte do seu tempo livre, parece-me que, no próximo filme da série, o velho exterminador irá ter armas bem mais poderosas para enfrentar os cyborgs, cada vez mais evoluidos.
Expectoração tóxica, peruca mórbida, placa fedorenta, barriga intensa, coluna ruidosa, arrotos bombásticos, verrugas caóticas, gases insuportáveis, peles assassinas e taradice sexual do pior, fazem parte da lista do novo armamento a utilizar na luta contra o domínio das máquinas, depois do dia do juízo final.
Resta saber qual será o vilão que aceitará medir forças com tamanho arsenal bélico. DV

QUEIRÓSTEIN E A FÓRMULA DOS INFERNOS

Há muito tempo que a humanidade aguardava o resultado das experiências que Dr. Queiróstein, conhecido cientista português sedento de poder futebolístico, desenvolvia numa cave húmida e escura de Madrid.
Afastado da civilização há vários meses, o cérebro tão genial quanto louco de Queiróstein parece, finalmente, ter descoberto a fórmula que permitirá Luís Figo e David Beckham jogarem na mesma equipa, ao mesmo tempo.
Segundo fontes próximas desta personagem demente e intrincada, a fórmula chamar-se-à “Queima-te e Baza” e foi descoberta com a preciosa ajuda de Paulo Portas e Cinha Jardim. Ao que parece, esta dupla foi uma grande fonte de inspiração pois ambos aparecem nas revistas da moda, fingem que gostam um do outro e jogam para o mesmo lado. DV
ESTÁ MESMO EM TODA A PARTE

Tarzan Taborda, o invencível da Costa da Caparica, disse, com o seu sotaque típico de pessoa fustigada por duplas patadas na boca, que Saddam Hussein já lhe tinha servido cafés. Ora bem, não vejo como não acreditar em tal afirmação.
O que acho estranho foi ele ter relatado que, quando perguntou a Saddam: Então o que é que se bebe aqui?, este ter respondido: Licor Beirão. DV
JET-LAG CIVILIZACIONAL I

Depois de uma estadia mais prolongada no estrangeiro, é sempre um alívio regressar à nossa Lusa pátria. Claro que este nosso cantinho da Europa tem uma personalidade e modo de vida muito próprios (para não dizer únicos), pelo que é normal ser necessário um certo período de adaptação e reintegração na nossa sociedade.
Daí que seja de louvar o verdadeiro serviço público que o Aeroporto de Lisboa presta a todos os seus passageiros nesta fase tão sensível de “jet-lag” civilizacional. Apesar da dimensão relativamente reduzida do aeroporto da capital, os seus funcionários fazem o impossível para nos reter o máximo de tempo (regularmente mais de uma hora) à espera das bagagens. A retenção prolongada de inúmeros turistas no ambiente seguro e neutral de um aeroporto, atenuando assim um choque directo com o mundo exterior, é uma estratégia de génio que apenas é limitada pelo tamanho deste. Quem não conseguirá agora compreender a premência de um novo aeroporto na Ota? Já consigo imaginar as multidões esperando horas a fio pelas suas bagagens, dias até... O futuro passa, indiscutivelmente, pela Ota, onde milhares de passageiros (alguns com estatuto de residente temporário - os otários) aguardam alegremente... Esperemos que a utopia se torne realidade o mais cedo possível. AA

ASSIM VAI O BONITO MUNDO DO FUTEBOL

Há atitudes no mundo do futebol que, pela generosidade e nobreza, ainda nos conseguem surpreender. Veja-se o caso Artur Jorge, magnífico treinador português, que decidiu cortar o seu bigode emblemático e vendê-lo a uma fábrica de piaçabas, remetendo o lucro das vendas dos 113 objectos feitos a partir dos seus pêlos para a Fundação Luís Figo.
Já com um património de 1,2 milhões de euros, a Fundação vê agora um aumento significativo das suas receitas com a entrada deste novo mecenas, que assim se junta aos três principais patrocinadores: BNP, Galp Energia e Coca-Cola.
Segundo fontes credíveis, António Manuel Ribeiro, do grupo rock UHF, prepara-se para seguir-lhe o exemplo, vendendo o cabelo que lhe resta à Feira do cavalo de Alcochete, onde este servirá de alimento a mais de 95 animais. Os lucros terão o mesmo destino.
Solidariedade e futebol de mãos dadas - uma situação “perfeitamente normal”. DV
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Autópsia é a nova revista de interiores que vai decorar as estantes da sua casa, a partir do próximo mês. Baseada numa ideia de sucesso em países como a Serra Leoa e Haiti, a Autópsia é uma revista à medida do seu corpo. Todos os meses, as melhores operações, os melhores pedaços soltos, os melhores cadáveres, fazem desta a publicação mais humana da Europa. Aqui ficam alguns testemunhos:

Afonso Henriques, o Conquistador
Depois de ter lido um artigo sobre D. Teresa na revista Autópsia, descobri que, no fundo, ela tinha um bom coração. Agora, mal posso esperar pelo dia da mãe. O meu obrigado à Autópsia.

Gentil Martins, o Desunificador
A secção dedicada aos gémeos siameses e outras aberrações é um must para os que procuram interiores mais vanguardistas e arrojados.

Bibá Pitta, a Autora do Fenómeno Pita Falafel com Molho de Sésamo
Não percam o meu artigo na Autópsia de Abril. Vou-vos mostrar como consegui decorar o interior do meu filho usando apenas mármore nas paredes dos pulmões, tijolos de vidro no céu da boca, tons claros nos intestinos e uma iluminação com variedade de recursos na bexiga. Apesar da criança não conseguir dar um único passo, fica bem em qualquer zona da sala. É demais!

Revista Autópsia – Confesse, está morto por comprar. Em Março, nas bancas!

Distribuído pela editora Dá-me Vómitos

DOIS HOMENS, UMA ESTUPIDEZ

Dois homens com um fumado ao pescoço dissertam sobre o trabalho de um operário da construção civil.

André - Para que será isto?
Jorge - Diz que é para um túnel.
A. - Para um túnel? Mas vão construir aqui um túnel, é?
J. - Acho que sim. É por causa daquele problema dos anões que se fala por aí.
A. - Dos anões? Quais anões?
J. - Oh, quais anões... Aqueles que nos roubam a dignidade logo pelo fresco da manhã.
A. - Aqueles que trabalham ali em cima, no talho de Rui Bexiga?
J. - Sim, sim. Esses mesmo. O presidente da junta está convencido que eles andam a esconder no esgoto as dignidades que nos roubam.
A. - Oh... Isso é cá uma pandilha. Para o que nós estavamos guardados. Olhe que hoje foram lá a casa às sete e um quarto, veja lá. Não há descanso nenhum. A minha mulher já me disse que, qualquer dia, aparecem na hora em que um tipo se vai deitar.
J. - É demais, é. Foi o que eu sempre disse. Isto é gente que não interessa a ninguém. Hoje, se bem me lembro, foram-me roubar a dignidade às sete em ponto. Como vê, até foi antes. Ainda por cima, no lugar da dignidade colocaram um presunto de Barrancos. O mesmo de anteontem!
A. - Não diga mais, não diga mais. A mim, trocaram-me a dignidade de hoje por uma alheira de Mirandela. Num espaço de duas semanas, já levei com esta alheira mais de quatro vezes!
J.- Sabe o que é isto, meu amigo? Incompetência, é o que isto é! Cada vez há menos brio no trabalho. A malta nova já não quer trabalhar, e quando o faz, fá-lo às três pancadas. Estes anões não são muito novos, mas são pequenitos, que é a mesma coisa. Eh pá, veja lá que eu cheguei a ir de propósito ao talho dizer: É assim, querem-me roubar a dignidade, sim senhor. Não digo que não. Agora têm é de me dar os enchidos que eu quero.
A. - É uma coisa sem explicação. Se eu soubesse que ia ser esta cegada, nunca teria alinhado numa coisa destas. Esta gente parece que não tem dignidade.
J. - Não tem, não.

DV
EXCLUSIVO

O Chá do Chapeleiro decidiu dedicar o post de hoje ao estranho caso do emigrante francês que, desde que chegou ao nosso país, tem vindo a transformar-se lentamente num palhaço do circo Atlas. A mutação finalizou ontem às 18.30 da tarde, em plena Avenida da Liberdade, depois de perceber que a sua viatura tinha sido multada por um funcionário da EMEL, que, atenciosamente, cumpria a sua digna função.
Tenho comigo a vítima deste caso bizarro, o sr. Jean Pierre, que nos vai falar um pouco sobre este calvário, que tanta curiosidade tem vindo a despertar, sobretudo, no meio circense.

Sr. Jean Pierre, comecemos pelo início, quando é que esta transformação começou?
Bem, tudo começou há 10 anos, em Vilar Formoso, quando parei para tomar um café junto à fronteira. Quando voltei para o carro, já vinha com o nariz ligeiramente abatatado e com uma flôr de plástico ao peito.

Porque veio para Portugal?
Vim para este país porque me apaixonei por um transsexual português, que, dois anos mais tarde, vim a saber que era mesmo uma mulher. Casámos e só ainda não tivemos filhos porque esta transformação faz com que a minha esposa não consiga parar de rir durante o acto.

No entanto, essa transformação parece estar completa...
Como disse, isto parou ontem, depois de me terem multado o carro, que estava atrás de uma viatura do estado, em plena Avenida de Liberdade. Dessa viatura saiu depois um motorista, que me colou um autocolante na testa, no qual estava escrito: “Se eu pagasse alguma coisa, tinha que ir ali ao café trocar esta nota de €10.” Foi aí que tudo acabou. Tornei-me num palhaço completo.

Mas o que diz a medicina sobre o seu caso? Como apareceu? Porque acabou?
A medicina tem um efeito terrível neste meu problema. Sempre que vou ao hospital, a transformação acelera de uma maneira brutal. Cheguei à conclusão que o melhor para mim é ficar em casa a brincar com um anão que se tornou meu amigo.

E a sua mulher? Como é que ela encarou esta sua doença?
Olhe, pergunte-lhe. Ela está ali ao fundo. Quer que eu a chame?

Mas ali ao fundo só está um urso a andar de monociclo...
Exacto. É a minha senhora. Ela trabalhou 15 anos no Tribunal de Instrução Criminal até se tornar naquele belo espécime. Quer vê-la engolir fogo enquanto emite sons guturais pelos sovacos?

DV
AS PROFECIAS DO MARQUÊS

Quem circula por Lisboa, apercebe-se que a cidade está pejada de cartazes, onde a figura do Marquês de Pombal dá conselhos práticos sobre o trânsito. Devo dizer que acho a ideia genial. Primeiro, a escolha da figura histórica é bastante feliz, pois mostra ao povo português, que tão maltrata os seus próprios artistas, as qualidades visionárias “nostredamescas” do Marquês, que, pelos vistos, em meados de 1700, já tinha um conhecimento profundo do caos urbanístico da capital, no séc. XXI. Segundo, prova que, o gosto que certos membros do governo português têm pelo uso de perucas, já é um problema antigo. DV

O QUE DISSE JOÃO GARCIA (O ALPINISTA PORTUGUÊS QUE TEVE DE IMPLANTAR GORDURA DAS NÁDEGAS NO SEU ESFRANGALHADO NARIZ) QUANDO FINALMENTE CHEGOU AO TOPO DO MONTE VINSON, A MONTANHA MAIS ALTA DO ANTÁRCTICO

Engraçado, até aqui me cheira a estrume... DV

DEBATE

Boa Tarde, caros leitores.
O Chá do Chapeleiro vai hoje debater o problema da Identidade Cultural e dos Touros de Morte em Passarocas de Baixo.
Como é sabido, esta pequena aldeia transmontana exige um regime de excepção, igual àquele que foi aplicado a Barrancos, pois considera milenar a sua tradição da sodomização dos touros de morte a indivíduos que debatem temas estúpidos, na primeira tarde depois do Dia de Reis.
Comigo, tenho o sociólogo Luiz Tripador; o representante da ANIMAL - Associação Nortenha de Intervenção no Mundo Animal, Gengis Khan Camargo; um membro do Clube do Aficionado, Narana Coissoró ; o presidente da Junta de Freguesia de Passarocas, Carabino Tiro Certo ; e um bombeiro voluntário de Vila Franca de Xira, o João.
Luiz, talvez começasse por si. Não se importa de virar, enquanto eu chamo o primeiro exemplar?
- Com certeza.
Vamos a isto então. Ia só pedir ao representante do clube do Aficionado para comentar o que estamos a ver.
- Ora, temos aqui, com o nº 129, um toiro castanho, de 4 anos, acochinado, e com cerca de 500 quilos. Está a enfrentar o sociólogo com grande valentia, e aplicou-lhe agora quatro marradas com alguma insistência. Vê-se que não é um toiro forcão, na sua plenitude, mas está a cumprir a função, não tanto pela bravura mas mais pela sua audácia. Repare como ele vira o sociólogo, fazendo com que este arrebite o seu pequeno traseiro, para facilitar a penetração. Devo dizer que o homem também está a ser brilhante, tentando evitar o melhor que pode o golpe certeiro do bicho. Mas pronto, já não há nada a fazer. É a consumação do acto, uma fabulosa prova da virilidade do animal, que vê no sociólogo a vaca que, no fundo, nunca teve. Foi uma pega de morte, sem dúvida. Bravo!
Vamos então continuar com o espectáculo, já que tradição é tradição.
DV
CHEGAR AOS 100

A esperança de vida do ser humano continua a aumentar, mas ainda são poucos os que conseguem o feito de dobrar a centena de anos. Uma dieta equilibrada, a prática de exercício físico, o repouso adequado e um ventilador potente parecem ser alguns segredos da longevidade.
Há cerca de três dias, tive o privilégio de falar com Fátima de Jesus, residente no Alentejo profundo, que, no meio dos seus 109 anos, e depois de 4 empalhamentos, ainda mantêm um olhar de menina a quem lhe foi roubada a boneca, nas guerras napoleónicas.
Mulher de grande sabedoria e de dores crónicas em 99% do corpo, a Avó Morte, como é carinhosamente tratada pelos frequentadores do cemitério onde reside, ainda tem o costume de dar uns pézinhos de dança nas festas das aldeias vizinhas. Toda ... a... gente ... me... pede ... para ... dar ... uns ... pézinhos ... de ... dança ... e ... eu ... dou. Têm ... é ... que ... mos ... devolver, ... que, ... parecendo ... que ... cof ... cof ... não, ... ainda ... me ... fazem ... falta ... para ... fugir ... dos ... açoites ... da ... minha .... mãe. – diz a centenária, babando-se de forma completamente arrebatadora.
Por falar em maternidade, esqueci-me de referir que este nosso exemplo de longevidade ainda tem os seus pais vivos e de boa saúde. Pareceu-me um pormenor irrelevante, pouco merecedor de atenção. No entanto, fica o registo.
Quanto ao modo como encara o resto dos seus dias, a simpática avó Morte parece ciente dos tempos conturbados que se avizinham: Veja ... lá ... você ... que ... eu ... ainda ... sou ... do ... tempo ... em ... que ... a ... festa ... da ... matança ... do ... porco ... da ... Lousã ... e ... o ... ”Preço ... Certo ... em ... Euros” ... eram ... duas ... coisas ... totalmente ... distintas.
Soltam-se os traques, abrem-se fissuras, cada hora de vida é uma hora de festa para Fátima de Jesus. DV
TENS UM BLOG? ENTÃO DEVES CONHECER O PEDRO MÉXIA...

Ontem descobri que, por mais estranho que seja o local onde habitemos, há sempre alguém que o relaciona com a morada de um amigo que, supostamente, deveríamos conhecer.
Perguntas como “Moras na Baixa da Banheira? A sério? Não conheces o Brôchas? O filho da Matilde, sabes quem é?” são bons exemplos da nobre arte de chatear uma pessoa até esta se espumar da boca.
Dentro do cérebro das pessoas, há qualquer mecanismo que activa automaticamente este tipo de associações, transmitindo a falsa sensação que poderá estar iminente uma coincidência engraçada ou até uma marginalização dos restantes presentes, face a uma conversa que nada lhes diz respeito.
Felizmente para o grupo e infelizmente para a pessoa que está a ser martirizada com perguntas de chacha, 90% dos casos têm resposta negativa.
Técnicas para evitar estas conversas? Não as há, meus amigos. E até posso afirmar que o pior está para vir.
Com a aposta do Presidente Bush num programa espacial, que prevê uma presença humana permanente na Lua e o lançamento de uma missão tripulada para Marte, temo que estas associações se tornem universais.
Conversas deste género, parecem-me inevitáveis:

Marciano – Olhe, faz favor.
Astronauta – Sim?
Marciano – O senhor é da Terra, não é?
Astronauta – Sou, sim.
Marciano – Conhece o Carlão? O marido da Emília?
Astronauta – O Carlão? Não conheço.
Marciano – Eu sei que ele é da Europa e que esteve a passar férias nas Canárias. Não está a ver?
Astronauta – Lamento mas não conheço. Deixe-me ir agora ali descarregar a sonda esp...
Marciano – Ele tem uma filha e um filho. A Paulinha e o Jaime. O Jaime até passou agora para o 6º ano...
Astronauta – Não estou a ver.
2º Marciano – E o Motoilo, conhece? Eu sei que ele é de África e passa fome. Tem assim uma carapinha, olhos castanhos e barriga inchada. Sabe?
Astronauta – Deixe-me só des...
3º Marciano – Por acaso não conhece o Tozé, do Planeta dos Macacos? Ele vive num Zoológico Neozelandês.

DV

OS SIAMESES MAIS MEDIÁTICOS

Há cerca de meio ano, aprovou-se secretamente uma lei à escala mundial que obriga todos os países a terem pelo menos um caso bizarro de irmãos siameses, de preferência unidos pela cabeça. Como se tem visto nos jornais e na televisão, as coisas estão a ser cumpridas à risca, já que todas as semanas há novos exemplos de gémeos que precisam de ser separados.
Felizmente, o governo português não se quis deixar ficar atrás do plutão dos países que já estão a seguir as normas mundiais e não só já conseguiu arranjar um par aberrante de siameses, como lhes deu uma mediatização televisiva inédita.
O programa chama-se Xpto, é transmitido pela NTV, e tem o par de apresentadores mais “colas” da televisão portuguesa. A mim não me enganam. Eles estão unidos por alguma parte do corpo. De certeza. DV

QUANDO O TELEFONE TOCA

Devo dizer que os ciganos não sabem ganhar dinheiro. Pura e simplesmente não o sabem fazer. Se eles tivessem a mínima noção das potencialidades da expressão de assustar crianças “Cala-te, porque senão a avó vai chamar os ciganos”, deixavam de importunar os transeuntes da Baixa Lisboeta com perguntas parvas do género “Pst, haxe?", ou a sua variante “Pistachio?”, desistiam de ser estilistas das peixeiras e das velhas da nossa praça, e descobriam que também se pode chamar casa a um espaço com paredes de 0.25m de espessura.
Porque é que não há ciganos a fundar empresas de intervenção doméstica?
Sim, empresas com o objectivo de acabar com o choro mais insuportável da criança mais demente, tudo através de uma chamada telefónica. Porquê continuar a viver na clandestinidade quando se tem um emprego legal (e não estou a falar brasileiro, meus amigos) e seguro nas mãos?
A utilidade é enorme, sobretudo para aqueles que não têm filhos mas que têm que gramar os dos outros nos transportes públicos. Não é difícil imaginar a cena:

Mãe: Carlitos, não chores.
Filho: Ahhhhhhhhhhhhh.
Mãe: Carlitos, olha as outras pessoas. Não chores, Carlitos.
Filho: Ahhhhhhhhhhhhh.
Mãe: Queres levar nesse rabo? Queres levar?
Filho: Ahhhhhhhhhhhhh.
Mãe: Oh, meu deus. O que hei de fazer?
Estranho: Minha senhora, porque não recorre à ameaça cigana?
Mãe: Bem lembrado. Carlitos, queres que eu chame o cigano? Queres?
Filho: Ahhhhhhhhhhhhh.
Mãe: Ah, é? Pois muito bem Carlitos. Tu estás a pedi-las...........Tou sim?
Cigano: Tele-Ciganada, boa tarde.
Mãe: Boa tarde. Eu tenho aqui um problema com o meu filho Carlitos. Há uma hora e meia que ele não pára de chorar e eu já não sei onde lhe bater.
Cigano: Importa-se de me passar ao seu filho, se faz favor?
Mãe: Sim, é para já.
Cigano: Tou, Carlitos?
Carlitos: Ahhhhhhhhhhh.
Cigano: Aiiiiii, cala-te já magano que te rabisco todo.
Carlitos: ....
Cigano: Rolex? Queres Rolex?

Mas será que sou o único a pensar nas potencialidades disto? DV

UMA LOUCURA DE DENTES

Há quem diga que as recentes imagens televisivas de Carlos Cruz mostram um homem num estado de loucura de brandar aos céus. Não vejo qual o espanto. Se eu estivesse preso e a minha mulher me viesse visitar sempre com as dentolas arreganhadas, só pensaria em duas coisas: ou ela está contente por já não ter a C+S de Benfica a jantar todos os dias lá em casa, ou gosta de dar com a língua nos dentes.
Ora, isto leva a loucura uma pessoa que tem culpas no cartório. DV

Nota: O seguinte texto contém a 2375ª piada acerca de Tatiana Romanov. Como pessoa de bom gosto que eu tenho certeza que é, aconselho-o a ficar por aqui na sua leitura. Volte mais tarde e, já agora, diga aos restantes visitantes deste blog que eu não tenho os videos do Taveira. Muito obrigado.

INAUGURAÇÃO

Depois de Amo-te Meco, Amo-te Chiado e Amo-te Porto, Pedro Miguel Ramos continua a ter muito amor para dar, desta vez no interior do país. Amo-te Castelo Branco vai ser inaugurado no próximo mês de Novembro e contará com a presença da encantadora Betty Grafstein, desta vez separada do seu marido.
Segundo a desenhadora de jóias, José Castelo Branco está farto de ser conotado com o mundo da homossexualidade e, como tal, não quis dar falsas esperanças ao proprietário do novo espaço.
- A Tatiana não é gay. Apenas gosta de se vestir de mulher e de jogar pictionary com o João Rolo e o Eduardo Beauté, como qualquer homem normal gosta. É muito injusto o que se anda a dizer da bichona do meu marido. – confessa Lady Grafstein com um certo amargo de boca, provocado pela falta dos medicamentos que deveria ter tomado logo a seguir ao almoço.
Confrontado com a sua declaração pública a Tatiana Romanov, Pedro Miguel Ramos disse estar consciente dos riscos que o nome do espaço pode implicar, sobretudo se tivermos em conta que a cidade na qual este foi implantado se chama Castelo Branco. No entanto, o proprietário disse estar a pensar mudar a designação para Amo-te Castelo do Bode, já que é um local cujo nome dificilmente encontrará homónimo.
Todavia, e como não se consegue agradar a todos, o presidente da Câmara Municipal de Castelo Branco, é contra a mudança do nome do espaço de Pedro Miguel Ramos:
- Não vejo utilidade nesta modificação. Lá pela minha terra ter nome de cabra, não quero que o título do bar seja mudado para Castelo de Bode. – contra-argumenta Joaquim Morão.
A seguir à sua participação no Big Brother, este é o pior momento da carreira de Pedro Miguel Ramos. DV

O GANG DAS ANOMALIAS

A medicina é alvo de muitos factos que, apesar de serem do conhecimento dos especialistas, o mais comum dos mortais desconhece plenamente. Qual a percentagem de indivíduos, não ligados à saúde, que sabem que há pessoas que vivem com um feto morto dentro de si, desenvolvido graças a uma bolsa de água semelhante à do líquido do ventre da mãe grávida? Será que muita gente sabe que há tumores que podem desenvolver dentes, cabelos e unhas?
Foi para combater este tipo de ignorâncias que, os criativos da fabricante de brinquedos Mattel, decidiram criar uma nova gama de bonecos educativos, a que chamaram “O Gang das Anomalias”.
O primeiro a ser lançado é o Benigno, um boneco que representa na perfeição um tumor cabeludo e sorridente que, comprimido no centro, profere um vasto leque de frases instrutivas, como por exemplo: Yo soy Benigno. Yo me quiero desarrollar dientro usted. No tienes una mamita para yo vivir?
Ainda antes do final do ano, serão postos à venda mais exemplares desta colecção, como Castro, o gémeo parasita que chora quando não tem sangue para chupar; Tareco, o gémeo siamês que bebe leite e mia quando o separam da cabeça do seu dono; e o Macaco Tozé, que fará as delícias das crianças imitando um hemorroidal bem desenvolvido.
Palavras para quê? É apenas mais uma óptima oportunidade para toda uma nova geração conhecer a insólita realidade das salas de operações de todo o mundo. DV

O CASO GRACINDA

Há agora uma nova moda – chocante, diga-se de passagem – que consiste na operação cirúrgica de certas e determinadas zonas do corpo, de modo a que estas consigam suportar as roupas da moda. As operações mais frequentes são aquelas efectuadas aos pés, de maneira a que as senhoras consigam, finalmente, suportar os sapatos que outrora eram impossíveis de calçar. Mas, ainda esta semana, Portugal foi palco de uma das mais insólitas cirúrgias com estes fins. Segundo o Jornal CM, Gracinda Antunes, uma doméstica de 48 anos, farta de passar ao lado de tudo o que é moda, decidiu desbastar grande parte da sua massa encefálica de maneira a conseguir usar um chapéu que tinha apreciado bastante nos saldos da Zara.
A operação correu bem e, depois dos tradicionais 25 dias em coma profundo, próprios de uma cirúrgia deste género, a D.Gracinda despertou de novo para a vida, pronta a fazer furor nas festas anuais do bairro onde reside.
Quem não vê com bons olhos este momento de viragem da vida de Gracinda é o seu marido, Alberto Carlos, que se queixa da inércia da sua esposa na lida da casa:
“Ela está muito diferente agora! Parece que está mais independente, não sei. Não faz nenhum em casa, anda uma calona que só quer é dormir. Quando vai às festas do bairro, em vez de dançar agarradinha a mim, não. Põe-se a rebolar no chão, de trás para a frente e de frente para trás, a sujar-se. Parece que está a dançar aquelas músicas malucas que dão nas discotecas. E repare, sempre com aquele chapéu enfiado na cabeçorra! Raios partam aquela mulher!”
Tentei entrevistar a insólita fashion victim mas, infelizmente, a D. Gracinda estava com um infecção na garganta que a impossibilitou de falar. DV

CUIDADO COM AS APARÊNCIAS

A semana passada descobri algo que há muito desconfiava que existisse: uma empresa de figuração em concertos. A N.dA.+ é uma empresa que coloca figurantes em recintos, palcos de concertos de cantores ou bandas portuguesas, de modo a que pareça que a lotação está esgotada. A proposta é excelente pois dá ao artista a ideia que é desejado, assim como aos poucos espectadores a força para continuarem a investir em espectáculos do género.
A empresa entrou no activo no concerto dos Delfins em Aguiar da Beira, colocando no recinto de festas mais de 100 manequins que estavam no desemprego, depois de inúmeras lojas Zara terem fechado as portas.
Esta primeira experiência não correu tão bem quanto isso pois houve cerca de 5 fãs da banda que descobriram a marosca, devido a encontrões mais fortes nos manequins.
“Isto é gente que quer armar-se em engraçadinha e depois traz estes tocos para aqui. Não há direito de fazer troça de uma banda tão linda como esta, não acha?” – diz Jacinto “O Bode” Oliveira, desconhecendo que foi a comissão de festas da sua terra que solicitou os serviços da N.dA.+.
No próximo dia 4 de Outubro, Mafalda Veiga irá actuar no Coliseu de Lisboa e, já é um dado adquirido, existirá figuração em mais de 80% da sala. Desta vez, a empresa promete um trabalho perfeito, sem mácula, com manequins forrados a alcatifa anti-empurrões reveladores, e servidos com pequenos leitores de cassetes, que serão ligados assim que a cantora acabar de cantar, soltando, então, frases incentivadoras como, por exemplo, “Mafaldinha, há quem diga que tu devias ter ficado no Pássaros do Sul e que as tuas músicas não valem um chavo, mas eu não concordo nada!” ou “Estou aqui para provar que estão errados todos os que dizem que 90% dos teus fãs são betos!”
Já era hora de fazer alguma coisa pelos amantes da música portuguesa. Finalmente, é tempo de dizer: Vocês não estão sozinhos, por isso, cuidado com esse tipo aí atrás porque ainda no outro dia tive a colar-lhe os bracinhos... DV

ELEIÇÕES JAMAICANAS

O mês passado, umas eleições autárquicas na Jamaica acabaram empatadas. Por lei, seria o presidente da comissão eleitoral a decidir qual o vencedor mas, como a sua imparcialidade não era tão notória quanto isso, determinou-se que tudo deveria ficar decidido com o digno sistema de moeda ao ar.
Confesso que fazia parte do restrito grupo de pessoas que pensava que o sistema eleitoral jamaicano era o fim da macacada. Estava iludido. A metáfora de todo o acto foi tão perceptível que só o meu cérebro bloqueado é que não percebeu o seu genuíno significado: Podemos sempre lutar por uma vida melhor mas, na hora de decidir, o dinheiro é que manda.
Os perigos do capitalismo na sociedade dos nossos dias. Pela lição de moral, bravo Jamaica! DV

PIADAS DE MAU GOSTO

Tenho notado que as frases feitas das actuações do Fernando Rocha estão a atingir proporções verdadeiramente assustadoras. A antiga expressão “É para o Bujão”, está agora transformada em “Ora Ladies and Gentlemen, puta que pariu. Ouve lá, é para o Bujão. Mais nada.” Logo a seguir, alguém do público grita “Rocha, és o maior! ”, ao que ele responde sempre da mesma maneira, “Obrigado, amigo. Tu também és o maior. Tens para aí 5 metros”.
Ora se, a estas frases orelhudas, juntarmos os aplausos sempre que ele diz palavrões ou grita o nome dos personagens que inventou para dar nova roupagem a anedotas velhas, posso concluir que, do espectáculo desta nulidade criativa, apenas sobram cinco minutos de verdadeira justificação de cachet.
Se repararmos que foram estes cinco minutos semanais que fizeram deste contador de anedotas um fenómeno de popularidade e um milionário humorístico, concluimos que há pessoas que não sabem ganhar dinheiro em Portugal.
Felizmente, este tipo de trabalho já está a fazer escola. Veja-se, por exemplo, o caso da ex-deputada Maria Elisa que, retirando-se da assembleia por alegados problemas graves de saúde, pôs o país inteiro a rir quando anunciou que tencionava ir para a embaixada de Portugal em Londres, ganhando assim 3000 contos por mês. O espírito de gozação aos que trabalham está perfeitamente conseguido, só que falta incidir um pouco no timing de comédia. Enquanto o Fernado Rocha justifica o pagamento em cinco minutos de trabalho, Maria Elisa demorou mais de um ano e meio até finalizar a sua actuação. DV

PROSTITUTOS NA CINEMATECA

Foi com uma certa alegria que li, há uns tempos, no jornal Público, uma notícia que dava conta do facto de haver um ministro conhecido pelos prostitutos do Parque Eduardo VII como Catherine Deneuve.
Depois de outro que gostava de ter relações sexuais vestido de sevilhana, este ministro/actriz confirma que uma das paixões do governo de Barroso é, sem dúvida, o glamour travesti, injustamente negligenciado anteriormente.
No entanto, esta primeira constatação esconde outra que, apesar de menos óbvia, merece toda a minha reflexão.
Quem é que ainda se lembra de Catherine Deneuve, vulto maior do cinema francês? Quem é que se recorda de toda a beleza e sensualidade inerentes a uma actriz de excepção? Quem é que a viu em filmes como “La Chasse a l’homme”, “Tristana”, “Je vous aime”, “Indochine”, ou, mais recentemente, “Pola X” ou “Dancer in the Dark”?
A resposta é simples: os prostitutos.
Parece-me inegável a cultura cinéfila deste grupo de jovens que, em horas mortas de negócio, se desloca em massa a uma Cinemateca ou a um Cinestúdio 222, ansiosos para dar de beber à sua paixão pelo cinema.
Não será, então, difícil de imaginar o ambiente vivido em horas de expediente, onde o amor à 7ª arte se alia a uma vida manchada pelo dinheiro sujo e por umas nódoas de esperma que teimam em sair.

Prostituto 1 - Viste aí a Catherine Deneuve?
Prostituto 2 - Não, hoje não. Quem eu vi ali perto do (pavilhão) Carlos Lopes, foi a Salma Hayek. O Guilhas estava-lhe a pôr o cu em Frida.
Prostituto 1 - Espera, mas o Guilhas não estava com a Tura Satana, lá mais acima?
Prostituto 2 - Não. Quem estava com essa era o Gigante Africano, que antes tinha estado com a Asia Argento, filha, e agora actriz fetiche, do mítico Dario Argento, mestre italiano do terror gótico.
Prostituto 1 - Bem, bacano, a conversa está agradável mas tenho de ir trabalhar. Chegou o
Chewbacca, da triologia “Star wars” e sabes como ele me curte.
Prostituto 2 - Ok. Xau aí... Brôchas, viste o novo filme do César Monteiro? Eh pá, fiquei mesmo impressionado com aquela cena final.
Prostituto 3 - Ai filha, a quem o dizes.


Um verdadeiro paraíso cinéfilo perdido nos preconceitos da vida. DV

Brilha, brilha Morceguinho
brilha bem devagarinho.
Desce, desce, vem pousar
cá no bule do meu chá.


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